Dando continuidade à série.....
Fragmentos de viagem busônica – Parte II – Macho que é macho não senta junto. (mais politicamente incorreto, quase impossível)
Outra espécime bastante comeum em viagens busônicas é o macho. Aquele exemplar que coça o saco, escarra na rua, limpa a orelha com a unha crescida do dedinho e assoa o nariz pressionando uma narina de cada vez, de modo que a meleca seja mirada diretamente no asfalto. O que é uma arte. Nojenta, mas exige anos de intensa prática.
Enfim, tenho plena certeza que vocês já visualizaram bem o “naipe” dos indivíduos.
Você reconhece o macho logo que ele entra no busão. Geralmente em bando. E, obviamente, bando de outros machos. O que chama a atenção em primeiro lugar é a vestimenta. Atente para o exemplo: camiseta regata, cabelo estilo “mullet étnico”, calça semi bag santropeito, ou calça justinha, daquelas que divide o saco no meio e modela o popozinho, sempre salientado pelo volume dos bolsos. Sim, o macho de verdade distribui entre os dois bolsos de trás da calça, carteira e muitos papeizinhos, pra bundinha não parecer mais volumosa de um lado só. E esse volume “papelal” é também uma proteção anti roça-roça: busão lotado, povo de pé, braços pra cima exalando aquele odor característico de axila vencida; sempre há um idiota – geralmente outro macho – que passa encostando o que não deve na traseira das pessoas. E o volume “papelal” evita esse contato. Astutos, não?
Outros fatores de reconhecimento:
1 – se o ônibus está lotado, eles vão lá para o fundo. E se amuquinham na porta. Mesmo que o destino seja o ponto-final, eles são quase a Glenn Close: atração fatal, só que pela porta de saída do busão. E você, cidadão ou cidadã, que quer descer no meio do caminho, além de ter que ultrapassar o corredor polonês que se forma, ainda tem que pedir pelamordedeus pros machos te deixarem sair. Porque com certeza eles estarão amarfanhados na porta E na escada.
2 – ônibus vazio: entram 10 machos. Há vários bancos vazios. Qual seria a logística nesse caso? Ou eles sentam juntos, dois em cada banco e aí conversam. OU se sentam separados e conversam com quem está perto. Correto??? Imagina!!! Macho que é macho senta sozinho. Nada de calor do corpo de outro másculo ao lado. Além disso, sentar sozinho abre uma gama de possibilidades de xavecar a pitchulinha que sentar ao lado. Mas essa é outra história.
Bem, o fato é que o macho senta sozinho, os 10, um em cada banco. E resolvem conversar. Detalhe: o que está no 1º banco quer falar com o que está no último. E os que estão no meio também conversam entre si. É uma maravilha. Aí, quando passa uma mulher, ou um protótipo de, na rua, um deles resolve mexer com ela. E todos os outros acompanham. E aí você é obrigado a ouvir aquelas coisas que nem o Waldick Soriano seria capaz de pronunciar. Qualificações como “b...tuda”, ou “isso deve mexer que é uma beleza” são alguns exemplos simples.
Algo que une os machos, no bom sentido, claro, é mulher. Aliás, homens em geral podem discordar em tudo. Mas mulheres são um ponto unificador. Mas o macho gosta de qualquer tipo de mulher. Qualquer peso, qualquer tamanho. Mas isso é bonito, afinal, eles são democráticos e não selecionam. Selecionar é ter preconceito. A mulher entra no busão, passa pelo corredor e imediatamente o fenômeno torcicolo acontece: pescoços se viram na direção dela em seqüência, tipo uma “ola”, e depois se fixam no alvo, fazendo aquelas caras pseudo-sexy. E depois falam: “viu, que bunda?”. Ok, isso todo homem fala. Mas o macho fala alto.
Uma observação interessante feita pela pesquisadora comportamental que vos escreve é que eles geralmente não pronunciam os ERRES: têça-fêra, mamita. E também criam um novo dia da semana: o dia de sábado e o dia de domingo. Que tal uma frase ilustrativa?
“Hoje a mamita tava ruim. Vo te que trabalha de dia de de sábado, mas é bom poque folgo no dia de têça.”
E aí continuam o papo cabeça. Cada um num banco. Ou todos ao mesmo tempo no fundo do busão. E falam o tempo todo. Alto. E sua vontade é, de no mínimo, se atirar pela janela.