"FRAGMENTOS DO BUSÃO - OU - FRAGMENTOS DE UMA VIAGEM BUSÔNICA III"
"AS BOLSAS ASSASSINAS - OU - AS MULHERES DESCENDEM DOS CANGURUS"
Nós, mulheres, temos uma ligação quase visceral com nossas bolsas. Pequena ou grande, da Louis Vuitton ou do camelô, a verdade é que as bolsas podem ser consideradas um filho. Um membro do corpo. Ou parte essencial e necessária do vestuário.
Houve até aquele caso, não sei se vocês lembram, mas noticiaram nos jornais. Uma moça, atrasadíssima para O encontro com O provável homem de todas as suas encarnações, esqueceu de de pôr a blusa. Mas a bolsa estava lá, presente. Quando se deu conta de que estava a andar pelas ruas de meia-taça e bolsa a tiracolo, não se fez de rogada. Sacou de lá seu casaquinho-básico-reserva-e-aliado-contra-intempéries e foi, toda lépida, ao encontro de seu amor.
Nossas bolsas carregam nossas almas. Ok, é exagero. Mas lá encontram-se a carteira, documentos, chaves, batons de várias cores, rímel, guarda-chuva, medalhinha de Santo Antônio, foto de alguém querido, base para unhas, lixa para unhas, escova, escova-de-dentes, e (ufa) chicletinhos!
Agora, imaginem vocês esse verdadeiro oásis portátil (ao nosso ver) ou arsenal de quinquilharias (ao ver dos homens) entrando no busão lotado. Não. Não somente o busão lotado. Mas o busão das 6 da tarde, de São Paulo, que faz o trajeto Anhangabau-Jardim Arapiraca, passando pela Paulista e pela Berrine. Isso torna o inferno praticamente um resort, meus caros.
Não há assentos vagos. Mas você não pode esperar o próximo, que só passa dali 45 minutos; isso se sua oração pra Nossa Senhora Protetora dos Dependentes do Ônibus surtir efeito. Ao entrar, depois de escalar cabeças e dar e receber cotoveladas, você percebe que não há assentos vagos. Melhor dizendo: não há nenhum ínfimo centímetro cúbico sem ocupação.
Coragem!! Ouvindo intimamente a música da São Silvestre, você ruma à catraca. Mas há alguém (geralmente outra mulher, mas aí já é tema de outro “Fragmentos do Busão”) trocando figurinhas com o cobrador. Você pede licença, e, após ser fulminada, consegue passagem. Quer dizer, uma quase passagem.
Só que o inevitável acontece: sua bolsa enrosca na catraca. Finalmente passa. Mas a bolsa da tiazinha à sua frente impede que você siga seu rumo à metade do veículo. Mas você, moça perseverante, ultrapassa esse obstáculo. Internamente, a música quase muda do “tãnãnã” da São Silvestre para o “tema da Vitória” da Fórmula 1. PAM PAM PAM! PAM PAM PAM!
Ledo engano, minha amiga. Ao olhar atentamente, há um corredor polonês de bolsas. Bolsas imensas. Mochilinhas. E você tem que se proteger e proteger a SUA bolsa também. Você a protege e tenta se proteger. Começa a chover. Fecham os vidros do busão. Começa o abafamento. Aquele mix de murrinha de cachorro molhado com odor de suor de muitos passageiros torna o ambiente catinguento e nauseante.
Depois de amassarem seus peitos com as mochilinhas, pisarem nos seus pés, de ter um roxo no braço, você avista praticamente o Santo Graal. Um ASSENTO acaba de vagar à sua frente. Você “corre” até ele mais do que japonês atrasado pra FUVEST. E senta! Sim! Você foi abençoada!
Tsc, tsc, tsc.Porque sentada você está na direção das bolsas. E as mesmas, apesar da proteção de suas portentoras, se mexem para frente e para trás conforme as pessoas passam. E bem na sua cara. Você bem que se oferece para segurar as de duas moças em pé ao seu lado. Mas elas gentilmente recusam (sim, isso acontece).
E, tomando bolsadas na cara, com um cara dormindo e babando no seu ombro (autêntico
Discipulo de Morfeu), você quase chora, e promete, pela enésima vez, que vai su mudar para qualquer cidade com mil habitantes e andar de carroça! Ah... Uma carroça!!!!!