O encontro do URUBU do Marco com Pai Zé das Intenéti
(Recado: antes de começar a ler - o Marco me autorizou a colocar o urubu no meio dessa mixórdia. Claro que o urubu dele é melhor que o meu. E prepare-se porque o texto é longo)
Ele veio voando em círculos em direção à mansidão de prédios. De lá do alto era difícil imaginar como tudo funcionava em meio aquele caos de carros, gente e prédios. Quando sobrevoava sua Champs Elysée privê – o Rio Pinheiros – ele considerava a raça humana a coisa mais podre e vil que já habitou a superfície terrestre. E ainda tinham a petulância de dizer que ele e seus semelhantes eram carniceiros. Ora essa! Eles, os urubus, tinham somente a obrigação de sobreviver e cumprir sua função na cadeia alimentar. E, modéstia a parte, faziam isso com maestria. Não destruíam, não poluíam, não matavam. Apenas cumpriam seu ciclo vital: nasciam, cresciam, comiam, se reproduziam e morriam. Assim, simples e sem danificar o ambiente.
Estava tão absorto em divagações, que quase se esqueceu de seu objetivo maior naquele momento: encontrar aquele careca no fumódromo e dar vazão a todos os seus questionamentos existencialistas. Ainda filaria um cigarrinho xexelento, sendo que sempre saía de lá orgulhoso em confundir aquele humano com sua sagacidade. Ele, o urubu, ia aproveitar que ele, o humano, andava a a quebrar a
promessa de nunca mais fumar e ia entupir um pouco seu pulmão com nicotina. Aquele careca nem dera atenção à praga que a
moça rogou caso ele fumasse. Pois que venham os cangurus!
E o urubu pensante nem percebeu o vulto que vinha em sua direção. Foi quando deu um encontrão em pleno céu com algo voador, que não era pássaro, nem avião, nem o Superman. Tráfego aéreo?
- ÊÊ! Vassuncê num olha por onde anda?
O ururbu viu, por segundos, o filme de sua vida passar perante seus olhos. “Será nque morri? Será que aquela bicada num bebum tinha feito ele adquirir o goró do cara? Humanos voam?” Olhando bem, agora, ele podia ver que o vulto era, na verdade, um velhinho negro de carapinha branca e cachimbo. Um humano voador! Isso era melhor que o Marco e seu cigarro! U-hu!
- Diz aí, velhinho dos céus, o que tu faz por aqui?
- Mais i esse urubu é muito do atrivido! Zifio respeita os cabelos banco desse nego! Respeita minha morti! Eu sô o Pai Zé das Intenéti, entidade protetora dos usuário dos computadô. Pai Zé tira egum dos hardware e benze os software. Pai Zé sabe destravar Windows só com rezadô, e tamém faiz conexão discada fica rápida.
- Hey velhinho! Já entendi! “Vassuncê” senta, roda e faz a festa em cima desses sistemas falhos que o ser humano cria.
- Pai Zé é um espríto poderoso que tamém lês os pensamento das pessoa. Mizifi num é pessoa, mas é metido a sabereta igual as pessoa. Intão eu sei tudo que ocê tá pensano sobre esse preto véio com cachimbo de Popeye!
Estupefato, o urubu quase teve um troço. Ele tinha acabado de comparar Pai Zé com o Popeye! Hum... Esse velhinho era esperto e tal, mas ele não tinha computador, então era melhor sair logo dali e ir filar um cigarrinho, antes que o careca saísse do fumódromo para pegar um cafezinho e voltar para sua “baia”.
- Ok Pai Zé, prazer lhe conhecer em espectro e ectoplasma, mas tenho que ir.
- Pai Zé tá com pressa tamém, já recebi um chamado duma moça qui num consegue abrí o ICQ on láine. Mas antes, vô dá um passe no mizifi urubu, qui tá muito carregado. Vassuncê tem qui tomá cuidado cas carniça qui come, vassuncê tem tamém qui si conformá com sua condição de urubu. Um urubu nunca vai sê um pavão.
- Ei! Peralá! Não quero ser pavão nem quero me acostumar com nada! Gosto da minha condição de urubu – animal e quase irracional, movido por instintos. Só que ocupo minha mente para não cai na inércia do cotidiano. A inércia é um grande mal da atualidade, ainda pior que a acomodação.
- ÊÊ mizifi, fecha essa tramela – Pai Zé deu uma baforada de cachimbo no bico do urubu – e reza com zi nêgo:
“sô urubu, sô preto e sô forte. Vivo à sombra da morte. Não a temo porque ela me alimenta. Nada me atormenta. Tenho sorte de ser urubu. Posso mandá os outro pegá a rima e í passeá.”
- ???? Que é isso, Pai Zé?
- Fecha o bico e se concentra. Vassuncê carrega a sombra dos desencarnados. Vassuncê tem que rezar antes de comê as caniça pra se libertá de ser a continuidade da podridão.
- Quê?
- É isso memo. Mizifi nunca pensô que dá continuidade à podridão do ser humano que tanto critica? Que na cadeia alimentar, está antes somente dos decompositô, os último da cadeia? Vassuncê se alimenta de carne em putrefação. Mizifi urubu se arvora de ser esperto, de ser animal, de não ter que se utilizar de convenções para responder aos seus instintos mais primários e de não ser destrutivo ao ambiente como os humanos. Mas vassuncê é uma sombra que come o que não presta, não produz, vive para ver a morte alheia e sorver o resto daqueles que tanto critica. ÊÊÊÊ, discupa, esse nego ás veiz recebe as influência dum espríto filósofo faladô. ÊÊ, sai pra lá!
E desapareceu, fumacinha no céu, confundindo-se com a poluição da Berrine. Nesse momento, o urubu estava quase a chorar. Nunca tinha pensado em si desta maneira. Nunca tinha pensado ser perpetuador da podridão. O que fazer? Virar vegetariano? Precisava de um cigarro, o quanto antes. Voou mais um pouco e logo viu a careca familiar e a camisa azul clara: era o Marco Aurélio, a olhar para o horizonte do Projeto Cingapura e a pensar na morte da bezerra.
- Aí, tem um cigarro? Preciso de um urgentemente.
- Nossa! Você! Aconteceu algo bizarro comigo.
- Não mais que comigo.
- Acabei de ter uma visão, um velhinho que se dizia Pai Zé das Intenéti. Apareceu do nada e me fez rezar um troço mui piegas.
- Você também? Ué, você acredita nessas coisas?
- Não, mas eu vi. E ele disse que minha energia está negativa, e isto está influenciando as máquinas aqui do trampo. Esses dias é só pepino que me aparece. Disse que tenho que me purificar através de um despacho.
- Caraca! Esse tiozinho é foda! Despacho do quê?
- Penas e bico de um urubu, com farofa e um mouse. Tudo em cima de um teclado ergonômico com botões de fácil navegação. Devo dizer algo do tipo: “vai urubu, manda essas energia passeá”. Isso te diz alguma coisa?
E o urubu percebeu um lampejo de interesse maldoso naquele olhar sempre bondoso de Marco.
- Ei Marco! O que há? Você sempre foi cético! Você não crê nessas parafernálias. Você sapateia no rabo do demo! Você...
Mas Marco só olhou novamente, um olhar de esguelha, um olhar estranho... E o urubu saiu voando, em círculos tortos, assustado. Saiu gritando aos quatro ventos que viraria um vegetariano produtivo, e que antes de questionar o outro questionaria a si. Quem olhasse da Marginal para o céu, veria um urubu desgovernado a emitir sons estranhos.
No mesmo instante, Marco disse baixinho:
- Aê Pai Zé! Valeu pela idéia! Eu não sei o que você é, nem sei se isso foi alucinação. Mas o importante é que aquele urubu que se acha minha consciência não volta tão cedo com aquela mordacidade de sempre.
E uma vozinha cheia de candura respondeu:
- Pai Zé tá aqui pra ajudá os mizifi bom de coração. Mas não se esqueça da promessa:
VOCÊ VAI FAZER UM VÍDEO DANÇANDO O TCHAN EM RITMO DE BLUES. Senão Pai Zé manda o urubu voltar, e ainda pior!
E a voz sumiu...